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Por Anderson do Patrocínio

Se existe um gênero de jogos que sempre fez a alegria da comunidade quando falamos de multiplayer local, esse gênero é o beat’em up, também chamado de “briga de rua” pelos mais chegados.

No passado, os arcades foram o lar natural desse tipo de jogo, que consiste em progredir por fases lineares enquanto distribui sopapos em inimigos variados, quase sempre gângsters e outros marginais que habitam o submundo do crime.

Ao mesmo tempo que grandes franquias reinavam nos botecos da época, os consoles domésticos contavam com títulos originais que se aproveitavam da criatividade para superar desafios tecnológicos – mesmo que com limitações, imagine a emoção de um beat’em up no NES! E é nesse contexto que surge no Japão, pelas mãos da Technos (a mesma de Double Dragon), a série Kunio-kun, que no ocidente ganhou um pequeno – e fiel – séquito de fãs por conta dos jogos Renegade e River City Ransom. De lá para cá o ocidente viu lançamentos esporádicos da franquia, até que River City Girls chegou para buscar seu lugar ao sol.

Pegue o pedaço de pau mais próximo e venha conosco espancar pessoas em nome da paz!

Antes de tudo, cabe comentar que Kunio-kun sempre se diferenciou de seus pares já na temática principal: aqui, em vez de policiais, justiceiros ou cavaleiros guiarem a luta do bem contra o mal, temos como cenário a delinquência juvenil do Japão moderno. Pense em uma mistura homogênea de Great Teatcher Onizuka, YuYu Hakusho e Rival Schools, mas com roupagem de briga de rua.

Como é possível deduzir pelo título, RCG é protagonizado pelas garotas Ryoko e Mizako, que na trama são responsáveis por salvar Riki e Kunio, seus respectivos namorados e protagonistas originais da série.

Embora seja, em essência, mera desculpa para encher todo mundo de porrada, a história vai sendo contada de maneira intercalada a acontecimentos importantes e traz personagens bem carismáticos; certamente terá favoritos entre protagonistas, chefes de fase e NPCs. Os apreciadores mais tradicionais do gênero ainda terão alegrias a parte nesse quesito, pois o universo de Double Dragon está oficialmente compartilhado com a série River City, ou seja, espere para ver Billy, Jimmy e Cia pelas ruas do Japão.

Se por um lado a história não excede expectativas, os demais quesitos de RCG nivelam o padrão para cima. Os gráficos são o estado da arte dos pixels, com movimentação fluída e animações muito bem humoradas. Os cenários são absurdamente detalhados, assim como os personagens. Detalhes como movimentação de tecidos, dedos, penduricalhos e expressões faciais são muito bem empregados, dando personalidade e carisma não somente às protagonistas, mas também aos inimigos e NPCs. A pixel art desse jogo é realmente de encher os olhos.

A jogabilidade também não fica atrás. Além de golpe fraco, forte e pulo, você tem um botão para especiais e outro para defesa. Há uma sensação muito satisfatória ao desferir os golpes e combos, ou seja, mesmo dentro da repetição característica do gênero (que convenhamos, se resume a andar e bater), você ainda deve encontrar bastante satisfação. Um ponto que pesa em desfavor é a ausência de um modo online, sendo o cooperativo local o único multiplayer disponível.

Seguindo tanto as tradições da série quanto a moda mais duradoura dos últimos tempos nos jogos, há ainda elementos de RPG, com um sistema de experiência que permite subir o nível das protagonistas, melhorando certos atributos.

Em relação à progressão temos um jogo não tão linear, que permite revisitar locais inicialmente já superados em busca de items ou personagens essenciais ao progresso.

Entra aqui uma reclamação de design em relação ao layout dos botões: o quadrado, botão essencial para a porradaria, também é utilizado para adentrar lojas ou mudar de ambiente, causando frustração em diversas ocasiões. Sim, parece pouco, mas isso vai te deixar totalmente irritado em médio prazo.

Em relação à sonoplastia temos também uma performance admirável, com destaque tanto para a dublagem quanto para as músicas. Se durante a jogatina as vozes possuem pouco destaque, nas cutscenes elas realmente enriquecem a narrativa. Já a trilha sonora mantém o alto nível durante toda a experiência, contando inclusive com algumas músicas cantadas. Não foram poucas as vezes em que a trilha se sobressaiu a tudo o que acontecia na tela, realmente capturando a minha atenção.

Jogando no hard e de maneira complecionista, um jogador médio deve investir cerca de 8 horas na primeira jogatina, podendo dobrar essa marca caso resolva encarar o NG+.

River City Girls é um título que possui muito mais qualidades do que defeitos. Mesmo o jogador mais casual certamente será rendido por essa experiência, enquanto que os fãs tradicionais da franquia ou do gênero encontrarão nesse título uma das expressões mais honestas dos beat’em ups nos últimos tempos.